Os formandos-progessores da 17.ª turma do Programa de Formação de Professores do Ensino Secundário (STEP) visitaram , no norte de Londres, no âmbito de um workshop sobre Ensino e Aprendizagem que explorou a relação entre a natureza, a reflexão e a educação. Através da observação, do debate, de atividades sensoriais e da composição de poesia haiku, os estudantes refletiram sobre a forma como os ambientes naturais podem moldar a atenção, incentivar a reflexão crítica e aprofundar a compreensão do ensino e da aprendizagem.
A aprendizagem não se limita às salas de aula. A aprendizagem ao ar livre estimula a observação, a reflexão e o contacto direto com o mundo que nos rodeia. Estas ideias moldam a abordagem do STEP à formação de professores no IIS, onde os futuros professores são incentivados a refletir muito atentamente sobre como e onde a aprendizagem significativa pode ocorrer.
No âmbito da série de workshops sobre Ensino e Aprendizagem da 17.ª Turma, Faheem Hussain levou os alunos a Queen’s Wood, uma antiga floresta no norte de Londres, e convidou-os a fazer uma pausa, observar e refletir sobre o mundo natural que os rodeava. A sessão não foi um intervalo nos estudos. Pelo contrário, explorou o módulo de Literatura Devocional e Ética Muçulmana do Currículo Secundário do IIS através de um ambiente de aprendizagem diferente.
O Queen’s Wood ofereceu algo que nenhuma sala de aula consegue reproduzir: a experiência imediata e vivida da interdependência. Árvores que se erguem há décadas, sistemas radiculares que sustentam ecossistemas inteiros e a prova silenciosa da coexistência em cada camada do solo da floresta. Para os educadores, estes não são meros fenómenos naturais; provocam uma reflexão mais profunda sobre o conhecimento, a comunidade e as condições em que as pessoas realmente prosperam.
Reflexões dos formandos-professores do programa STEP
As reflexões que se seguem foram escritas por estudantes do STEP que participaram no workshop. Cada um traz uma perspetiva distinta, moldada pela sua origem, cultura e experiência. Em conjunto, oferecem um vislumbre do que significa aprender — e ensinar — com o mundo natural.
Farkhandah Jabeen
Do Vale de Yaseen, Gilgit-Baltistão, Paquistão
.Os espaços naturais podem tornar a aprendizagem mais ativa, reflexiva e significativa. Embora tenha crescido no ambiente natural de Gilgit-Yasin, raramente tinha refletido sobre a natureza como um espaço de aprendizagem. Durante o workshop no Queen’s Wood, observei, senti e refleti sobre o que se passava à minha volta — e esta experiência ajudou-me a desenvolver uma compreensão mais profunda da relação entre a natureza e a aprendizagem.
O chilrear dos pássaros,a brisa fresca entre as árvores, os insetos a voarem em volta, as folhas de cores variadas e a casca antiga, mas resistente, das árvores chamaram-me a atenção. Ajudaram-me a compreender o significado da coexistência e da nossa interdependência. Também me fizeram perceber que os ambientes naturais podem ser uma das melhores estratégias de ensino e de aprendizagem.
As raízes permanecem invisíveis e, no entanto, são essenciais, pois ajudam as árvores a manterem-se de pé e a sustentar tudo o que as rodeia. Isto mostrou-me como cada elemento da natureza desempenha um papel importante na sustentação dos outros.
O nosso conhecimento é limitado quando tentamos compreender toda a diversidade da natureza. No entanto, a natureza convida-nos a refletir mais profundamente. Se eu fosse procurar respostas para as perguntas mais fundamentais — Quem sou eu? Onde está Deus? —, não as procuraria dentro de quatro paredes. Procurá-las-ia debaixo de uma árvore, enquanto observava as estrelas à noite, ou à beira-mar.
Para muitos estudantes, o workshop tornou-se também num espaço de reflexão pessoal, criatividade e ligação emocional com a natureza.
Abidah Nasreen
Do Vale de Hunza, no Paquistão
O que mais valorizo no facto de ser uma formanda-professora do programa STEP é que a aprendizagem nunca se limita às salas de aula ou aos livros. Ela expande-se por espaços que nos permitem sentir, refletir e simplesmente ser. O workshop ao ar livre em Queen’s Wood foi uma daquelas experiências raras que ficou gravada na minha memória muito tempo depois de ter terminado.
Como alguém que encontra conforto na natureza, a floresta pareceu-me um refúgio familiar. No entanto, partilhar aquele espaço com os meus colegas conferiu-lhe um novo significado. Na nossa primeira atividade, ficámos juntos, de mãos dadas. Naquele momento, senti o calor da presença humana — frágil, fugaz, mas profundamente interligada. Isso fez-me lembrar de que não estamos separados da natureza; fazemos parte dela.
Afastando-se do barulho da incerteza… o workshop ofereceu algo mais sereno: espaço para pensar, para sentir e para criar.
Naquele silêncio, dei por mim a escrever um poema novamente, algo que já não conseguia fazer há muito tempo. Aquele momento de reflexão pareceu-me profundamente ligado a um ensinamento do Nahj al-BalāghaLit. «o caminho da eloquência». Uma conhecida coleção de cartas, sermões e máximas atribuídos ao Imam ʿAlī b. Abī Ṭālib (m. 661 d.C.), compilada na sua forma atual por al-Sharīf… — uma lembrança de que a natureza não é apenas algo para observar, mas algo que revela significado.
A folha castanha caída fala:
Do pó me levantei, pó eu sou
As alturas nunca foram minhas
O vento leva-me de volta a casa
A juventude e a cor desvanecem-se
na verdade. Perto de Ti, estou completo
O workshop incentivou os estudantes a interagir com a natureza de diferentes formas, através do movimento, da exploração sensorial, da reflexão e da prática criativa.
Nairouz Razouq
De Salamiyah, Síria
No início, perguntei-me qual seria o sentido de viajar até tão longe apenas para dar um passeio assim que chegássemos. Rapidamente percebi que não se tratava simplesmente de mais um lugar — parecia um mundo completamente diferente. No meio da Londres urbana, existia uma floresta que parecia intocada pela mão do homem. Os únicos sons eram o canto dos pássaros, o suave sopro do vento e a presença silenciosa de criaturas escondidas entre enormes árvores silvestres.
Passámos por uma série de atividades, cada uma delas revelando uma forma diferente de vivenciar o mundo. Um grupo explorou a floresta com os olhos vendados, guiado apenas pelo tato e pelo som, descobrindo até que ponto a visão humana molda a nossa compreensão do mundo. Outro grupo explorou a floresta através do olfato — comparando os diferentes aromas e percebendo as memórias que estes transportavam. Um terceiro grupo percorreu a floresta com câmaras, relacionando o que via com conceitos abordados nos módulos do curso.
Viver esta reflexão na natureza foi completamente diferente de discuti-la numa sala de aula; pareceu-se mais com a vivência de uma experiência espiritual.
Mais tarde, sentados numa clareira onde a luz penetrava através das nuvens, escrevemos poesia — primeiro sozinhos, depois em pares, entretecendo as palavras uns dos outros para criar algo novo.
Através dos poemas, tivemos pequenos vislumbres da forma como cada pessoa percecionava o mundo. Alguns escreveram sobre a esperança, outros sobre o amor, a evasão e a saudade.
O workshop incentivou os estudantes a interagir com a natureza de diferentes formas, através do movimento, da exploração sensorial, da reflexão e da prática criativa.
Anooshey Abid
De Lahore, Paquistão
O workshop ao ar livre em Queen’s Wood faz parte do nosso curso de ensino e aprendizagem, que proporciona um enquadramento contextual para fazer a ponte entre os conteúdos e a pedagogia. Ao caminharmos pela floresta, explorámos a natureza como ponto de partida para a aprendizagem. Algumas das atividades levaram-nos a fazer uma introspeção profunda, levando-nos a deambular por pensamentos e emoções em busca do tipo de quietude que é difícil de encontrar noutro lugar.
O que mais me impressionou foi como as limitações do ambiente ao ar livre — o imprevisto, o desconhecido — se tornaram num convite para aprofundar a experiência.
A atividade de poesia estava diretamente relacionada com o nosso módulo de mestrado sobre literatura nas sociedades muçulmanas e deixou uma coisa bem clara: a criatividade não é um extra. É a forma como os estudantes dão sentido ao que aprendem.
Cada estudante traz para a sala de aula as suas próprias emoções, perspetivas e experiências.
A natureza também fez sobressair a importância do equilíbrio e do bem-estar. A aprendizagem ao ar livre pode criar oportunidades para os alunos que enfrentam dificuldades em ambientes de sala de aula tradicionais — permitindo-lhes participar através da criatividade, do movimento e do debate. Enquanto educadores, a mim esta experiência encorajou-me a refletir sobre como podemos criar oportunidades mais inclusivas e significativas para os nossos alunos.
O workshop também incentivou os alunos a refletir sobre a espiritualidade, a memória e as dimensões emocionais da aprendizagem.
Faten Ghaibour
De Tartus, Síria
O workshop proporcionou uma experiência de aprendizagem muito diferente daquela que habitualmente associamos à educação. Através de passeios na natureza e da observação, silêncio, discussão e escrita de poesia, a sessão encorajou-nos a abrandar o ritmo e a vivenciar a aprendizagem através da reflexão e da presença, em vez de apenas de informação.
Houve um momento durante o passeio que ficou gravado na minha memória. Ao contemplar a luz do sol a filtrar-se entre os ramos, lembrei-me da minha infância. Lembrei-me de estar sentada num baloiço, debaixo das árvores, a falar com Deus e a imaginar a Sua presença à minha volta. Durante o workshop, inesperadamente, senti novamente essa mesma sensação de quietude, proximidade e maravilhamento, depois de tantos anos.
Essa experiência também me fez lembrar por que razão o STEP é um programa tão significativo. Ver os meus colegas a ligarem-se com a natureza de formas profundamente pessoais e diferentes mostrou-me que a aprendizagem não se dá apenas de uma única forma ou num único ambiente.
Enquanto educadores, muitas vezes concentramo-nos no desenvolvimento da mente, mas uma aprendizagem significativa deve também criar espaço para a reflexão, a emoção, a espiritualidade e a ligação humana.
O workshop incentivou-me a pensar em como posso integrar estas ideias na minha própria prática de ensino e criar espaços onde os alunos se sintam capazes de refletir, estabelecer ligações e aprender de forma mais significativa.
Aprender além da sala de aula
O que estas reflexões têm em comum é algo que nenhum programa de estudos consegue captar na íntegra. Cada estudante chegou a Queen’s Wood com uma história diferente — paisagens diferentes na memória, perguntas diferentes na mente — e cada um partiu com uma compreensão mais profunda do que significa ser simultaneamente aluno e professor. A natureza não lhes deu respostas. Deu-lhes perguntas melhores.
É precisamente para isto que o STEP foi concebido. O Programa de Formação de Professores do Ensino Secundário não se limita a formar professores — forma educadores ponderados e reflexivos, que compreendem que a aprendizagem é um processo vivo, moldado tanto pela curiosidade e pela observação como pelo conhecimento e pela instrução.
Se é membro da comunidade ismaili, se tem uma paixão pela educação e está empenhado em apoiar a próxima geração, o STEP pode ser o programa ideal para si.